30.1.11

.Girl Next Door.

Mudei pra minha casa atual aos três anos de idade. Quando desci do carro, ainda sonolenta pela soneca esperta no banco de trás, vi algumas crianças brincando na rua e minha mãe apontando: "Olha lá, é nossa vizinha. Vai ser sua amiga" Eu mal sabia o significado de vizinha, amiga e, menos ainda, de significado. Acho que pensei "ela tem janelinhas".
Apesar de não entender palavras, aposto que me apaixonei de imediato não só pelos dentes de leite que caíram mas também pelo que mamãe disse: amiga. Isso, ao meu ver, era como coleguinha, termo mais usado antigamente pra deixar bem claro quem você pode morder e quem você não pode. Não se mordia coleguinhas.
Haviamos nos tornado "melhores" amigas poucas horas após tê-la chamado para brincar de boneca pela primeira vez. Ao acordar, escovava os dentes e ia até sua casa para acordá-la também. Ela nunca fazia isso porque sempre fora preguiçosa, dormia até mais tarde e não dava a mínima pra Sessão de Desenhos que passava às 7 da manhã - um insulto aos Looney Tunes. Ela não se importava com muitas coisas, quem diria comigo. Na verdade, ela só queria ter alguém por perto, não somente para conversar, talvez para sentir o calor da presença e o roçar de outro par de chinelos na calçada. Mas fosse qual fosse a circunstância, estávamos juntas, mesmo quando não devíamos estar.
Lembro-me de um fato curioso. Um dia, não sei porque, lancei uma pedra enorme contra ela e a acertei em cheio no olho. Voltei desesperada pra casa e contei de imediato - entre lágrimas e mais lágrimas - o que havia acontecido. Acho que nunca chorei tanto, e olha que não era eu que tinha uma pedra no olho. Ela ficou bem puta mas logo  juntamos os dedinhos novamente, nossas brigas nunca duravam muito tempo.
Mantivemos esse laço por mais de uma década até que ele foi se soltando. Rapidamente, sem se embaraçar no caminho ou pensar em amarrar-se de novo. E quando me questionam sobre o que aconteceu, eu digo que a vida aconteceu, o tempo aconteceu. Eles nos tiram tantas coisas que julgávamos fundamentais mas nos dão outras de igual valor em troca, mesmo sem a permissão para trocar.
Às vezes penso nela, nas passagens aleatórias e fragmentadas da nossa infância. Lembranças que parecem pertencer a outra pessoa, não a mim. Cartinhas com caneta de gel, fotos com o chapéu da Barbie - motivo de brigas sérias - planos de viagens que nunca deram certo, maçãs vermelhas, pique-esconde na rua sem saída e segredos compartilhados ao brilho da lua nítida no céu, que era menos poluído naquela época. Lembranças de um tempo que foi empacotado e trancado no meu baú para que, assim, eu crie novas lembranças e novos "melhores" amigos, talvez nunca tão duradouros mas igualmente especiais e inesquecíveis, por mais empacotados, empoeirados e trancafiados que se tornem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário